22/03/2004 - Discurso pronunciado por Márcio Cypriano, novo presidente da FEBRABAN - Federação Brasileira das Associações de Bancos, dia 19 de março de 2004, em São Paulo, na solenidade de posse da nova diretoria da entidade

Senhoras e Senhores - Autoridades Presentes

Assumo a Presidência da Febraban em um momento muito especial e decisivo para o Brasil. Estou certo de que a Febraban continuará sendo, e cada vez mais, um agente poderoso e facilitador no processo de mudanças em curso no País.

Eu me refiro a um novo ciclo de desenvolvimento econômico· Desenvolvimento no sentido amplo da palavra, e não apenas o registro estatístico da variação do PIB·

Desenvolvimento com distribuição de renda, diminuição do desemprego, melhora significativa da qualidade de vida da população· Desenvolvimento responsável, que não abra mão da estabilidade econômica tão duramente conquistada· E que, por estas razões, seja duradouro·

Este é o objetivo da agenda positiva brasileira, a proposta do atual Governo e de todos nós, empresários, trabalhadores, acadêmicos, estudantes, donas-de-casa·

Pois é também a agenda da Febraban e das instituições financeiras que ela representa· Temos esse dever para com as gerações futuras·

No processo econômico, os Bancos têm a função de dar suporte à indústria, ao comércio, à agricultura e aos cidadãos no dia-a-dia·

Sua importância é indiscutível e sua responsabilidade cresce na medida em que toda a sociedade se mobiliza pela retomada do crescimento econômico· É na proporção desta importância e desta responsabilidade que a Febraban deseja e vai participar, na linha de frente, junto às demais lideranças econômicas e políticas, da consolidação de uma sociedade mais próspera e mais justa·

Tenho a convicção firme de que podemos transformar este País, num curto espaço de tempo· Vejamos o Brasil de 2003 e destes primeiros meses de 2004· Em que pesem crises sucessivas que abalaram a economia mundial nos últimos anos, nossos resultados são bons· Temos, portanto, base e suporte para um novo salto·

Com a gestão responsável do atual Governo em todos os campos, mas principalmente na área econômica, afirmou-se a estabilidade monetária pela qual lutamos durante tantos anos· O nosso Banco Central é reconhecido internacionalmente pela sua prudência, transparência e conhecimento técnico·

A questão do Banco Central autônomo, aliás, é um ponto importante a ser citado· Este assunto merece ser discutido pela sociedade à exaustão, sempre a seu tempo e na ordem cronológica das prioridades da Nação· A confiança na capacidade e na competência técnica do Banco Central de fazer o que precisa ser feito, da forma mais autônoma possível, é a base para o amadurecimento monetário definitivo do País, trazendo benefícios tangíveis à precificação do risco-país com repercussões positivas sobre o custo de capital no Brasil· Portanto, achamos importante a aprovação de uma Lei que conceda autonomia operacional ao Banco Central, uma autonomia de instrumentos que não pode ser confundida com autonomia de objetivos· Estes, devem continuar sendo uma prerrogativa do Executivo· Confiamos no processo democrático·

Nos últimos anos, registra-se ingresso expressivo de capitais estrangeiros, o que é um sinal de nossa potencialidade econômica· O Brasil tem alcançado recordes sucessivos de exportação· A Balança Comercial apresenta saldos positivos e crescentes·

Se já éramos um dos principais produtores mundiais no setor agrícola, estamos alcançando agora também uma posição de liderança na produção de carnes· A indústria brasileira é moderna e diversificada· Não apenas resistiu à rápida abertura comercial ocorrida no início dos anos 90 como aproveitou essa circunstância para capacitar-se· E hoje compete no mercado global·

Quanto ao Sistema Financeiro, basta dizer que dos sucessivos ajustes, alguns deles dramáticos, ocorridos na última década, surgiram Bancos que em termos de solidez, eficiência e tecnologia estão entre os melhores do mundo· E é preciso acrescentar que a confiabilidade dos Bancos foi fundamental para que o Brasil superasse duas crises cambiais sucessivas· Somos respeitados nos mercados interno e externo, como provam as significativas captações de recursos no mercado internacional·

Como bancário há 37 anos, digo isto com orgulho e com a confiança de quem passou por todos os estágios da profissão: as instituições financeiras que a Febraban representa estão à altura de qualquer desafio·

Fazendo-se um balanço da situação econômica atual do País, verificamos que há mais vantagens que obstáculos para uma retomada rápida do desenvolvimento·

Temos maturidade política, aliada a uma economia com qualidade e escala· Temos empresários e trabalhadores capazes· Temos uma sociedade civil que evolui e se fortalece a cada dia· E o que é mais importante: existe unidade de pensamento no Brasil em relação às nossas demandas·

Há consenso na sociedade de que é preciso evoluir para uma economia que atenda também as demandas sociais· É uma oportunidade que não podemos perder· Estou certo de que não vamos perdê-la·

É um compromisso da Febraban·

Para cumprir essa tarefa, as instituições financeiras têm se aperfeiçoado, feito investimentos relevantes em tecnologia e em treinamento, expandido sua rede de atendimento·

Mas há ainda mudanças a serem feitas para que o Sistema Financeiro possa contribuir, com toda a sua capacidade, nesse tempo onde o que se requer é a retomada do crescimento·

O Governo realizou reformas estruturais que melhoraram o cenário macroeconômico, visto na perspectiva do médio e do longo prazo· É o caso das reformas previdênciária e tributária· É preciso tratar agora da modernização das leis trabalhistas· Elas são inadequadas à realidade, impedem a criação de empregos e obrigam empresários e trabalhadores a ingressar na informalidade·

Um novo ciclo de desenvolvimento implica a ampliação do crédito disponível no Brasil· Sem crédito, o crescimento econômico será difícil, amarrado· Infelizmente, o que constatamos no momento é a existência de dificuldades para a livre fluidez do processo de concessão de crédito·

A questão a meu ver, porém, é simples· Aliás, a primeira atitude que deveríamos assumir em relação ao crédito é sua desmistificação· Definitivamente, não há Banco que não goste de emprestar dinheiro, ver seu cliente prosperar, para, depois, estreitar novos relacionamentos de negócio com ele· É um ciclo de longo prazo onde todos saem ganhando·

Portanto, chegou a hora de liquidarmos com o paradigma de que este é um assunto complexo e de difícil solução· E, pior, de que não interessa aos Bancos ajudar em sua solução·

Estamos juntos nessa tarefa·

Resume-se, em nossa opinião, em estender ao negócio da intermediação financeira o mesmo banho de modernidade de outros segmentos da economia, limpando a atividade de excessos regulamentadores, direcionamentos, contingenciamentos, travas fiscais e restrições de ordem monetária·
O elevado nível dos depósitos compulsórios, por exemplo, já não se justifica em face do baixo nível da atividade econômica, da queda da inflação e dos volumes de crédito·

A chamada cunha fiscal é outro item a ser revisto· O Brasil é o único País que cobra quatro tributos nas transações financeiras: IOF, CPMF, PIS e Cofins· São impostos que acabam por elevar o custo do dinheiro para quem toma emprestado·

Tornou-se moda criticar o spread bancário, como se ele fosse o único responsável pela composição do custo final dos empréstimos· Na verdade, representa tão- somente a expressão da remuneração do agente financeiro no processo de intermediação·

Sua flutuação depende de vários fatores: o grau de modernidade do sistema de intermediação financeira, as incertezas jurídicas, sua flexibilidade às leis de mercado, as condições da conjuntura macroeconômica e a tendência da demanda agregada da economia·

Pela sua variação, podemos identificar o estágio de eficiência do sistema de intermediação financeira do mercado· Quanto menor a sua taxa, mais eficiente é o modelo· E quanto maior a eficiência, maior a oferta de recursos e, em conseqüência, maior a segurança das operações·
Regras de livre mercado, nada mais·

No entanto, o atual ambiente da intermediação financeira é controlado e fortemente influenciado por uma série de regras e direcionamentos· Em muitos casos o crédito se inviabiliza· Com o que acontece uma situação extravagante: o Banco fica sem demanda de credito, o tomador se retrai e o Governo acaba sem arrecadar seus impostos·

Falemos também da Lei de Falências, imperfeita, que inibe crédito e investimento· Há um sinal positivo pelos avanços do projeto em tramitação no Congresso, mas ainda é preciso aguardar sua aprovação e implementação·

Há problemas também com a crescente contestação judicial a contratos juridicamente perfeitos entre Bancos e clientes, o que desorganiza e traz insegurança ao Sistema Financeiro·

Da soma desses problemas forma-se um preconceito, segundo o qual são os Bancos os responsáveis pelas dificuldades do crédito· É uma percepção errônea· Não nos interessam juros que tornem o crédito inacessível· Não nos interessa o crédito que se torne impagável·

E o nosso foco versa sobre o tema do desenvolvimento, do crescimento que todos desejamos, pois esta é a questão mais premente no Brasil hoje·

É o que nos une e que nos faz seguir em frente: a esperança de que estamos ajudando a construir um País mais próspero, e uma prosperidade que seja extensiva a todos os escritórios e lares brasileiros·

Gostaria de refletir um pouco sobre a contribuição que as instituições financeiras sempre deram, e dão a todo instante, para o aperfeiçoamento da economia brasileira·

A Febraban representa um segmento que é grande gerador de empregos· São cerca de 400 mil empregos diretos· O número de empregos indiretos é difícil de calcular, mas sabemos que a atividade de um banco gera trabalho em inúmeros outros setores· Entre salários, benefícios e encargos sociais, os Bancos pagaram, em 2003, algo em torno de 30 bilhões de reais·

É provável que os Bancos sejam, hoje, os maiores investidores do País nas áreas de informática e tecnologia· Falo aqui de um valor próximo de 4 bilhões de reais por ano· É um investimento que, de uma forma ou de outra, reverte em benefício de toda a sociedade·

Em impostos e outras contribuições foram, também em 2003, cerca de 12 bilhões de reais· Administramos cerca de 70 milhões de contas correntes e aproximadamente 60 milhões de contas poupança·

Cito esses números para dar a dimensão aproximada do Sistema e também para mostrar a função essencial que ele exerce na economia brasileira· No entanto, nossa contribuição vai muito além· Somos, por exemplo, o canal pelo qual os Governos recebem impostos e taxas, pagam pensões e aposentadorias, entre outras coisas· Isto é relevante para o Governo e a população· Para o Governo, porque ele tem nos Bancos um instrumento eficiente de administração de suas contas· Para a população, porque os Bancos oferecem rapidez e comodidade nessas operações· Vemos isso como um trabalho social importante realizado pelas instituições financeiras·

Mas elas contribuem de várias outras maneiras· Os Bancos tornaram-se hoje grandes fomentadores da educação, dos esportes e da cultura· São grandes promotores de ações de apoio à cidadania, de proteção e respeito ao meio ambiente·

Mantêm um padrão ético elevado em seu relacionamento com clientes, concorrentes e o Governo·

Há mais a ser dito sobre a função dos Bancos· Se nossa rede de agências, postos de serviços e máquinas de atendimento automático já era gigantesca há alguns anos, tornou-se maior com a criação dos correspondentes bancários em supermercados, estabelecimentos comerciais e agências lotéricas, do Banco Postal e do recém-criado Banco Popular· Por esses meios, os Bancos brasileiros estenderam seus serviços a todas as cidades do País·

Chegam, agora, às comunidades mais remotas· Este fato não tem sido avaliado em toda a sua importância e é por isto que eu o reitero·

Levar serviços bancários até aquele que não tinha acesso a Bancos significa melhorar a condição social e econômica dessa pessoa· Com um Banco ao seu lado ela pode poupar· Pode tomar dinheiro emprestado· Pode pagar suas contas e receber pensões ou aposentadorias sem o custo de deslocar-se, às vezes por dezenas de quilômetros, para outra cidade·

Esse cidadão, em resumo, ganha um endereço financeiro· Torna-se um cidadão pleno·
Estamos tratando aqui de mais de 15 milhões de pessoas imediatamente beneficiadas· Estamos falando de um processo extenso e profundo de inclusão social· De abertura de oportunidades, novos negócios, progresso econômico· Progresso social·

Senhoras e senhores,

A Febraban, tenho certeza, fará a parte que lhe cabe na construção de um País melhor· É o compromisso de toda a diretoria eleita para este novo mandato· Estamos abertos para o diálogo, com Governo, classe política, entidades empresariais, sindicatos, imprensa·

Agradeço a Lázaro de Mello Brandão, Presidente do Conselho de Administração do Bradesco, pela confiança e amizade, cultivadas ao longo de meus 31 anos de trabalho no Banco, e pelo exemplo de conduta ética e profissional·

Meus agradecimentos ao Conselho do Banco, aos meus colegas de Diretoria e aos nossos 75 mil colegas de trabalho·

Agradeço ao amigo Gabriel Jorge Ferreira, a quem tenho a honra de suceder na Presidência da Febraban, e que agora assume a Presidência da Confederação Nacional das Instituições Financeiras, em lugar de Antônio Bornia, Vice-presidente do Conselho de Administração do Bradesco, que lá desenvolveu um trabalho de referência·
Agradeço a todos os Bancos que formam o Sistema Financeiro Brasileiro, o maior da América Latina, pelo apoio que me foi dado· Esses agradecimentos são feitos em nome dos Diretores da Febraban que tomam posse junto comigo: Fábio Barbosa, José Luiz Acar, André Esteves, Antonio Matias, Carlos Alberto Vieira , Edson Monteiro, Fernando Nogueira da Costa, Geraldo Carbone, Gustavo Marin, Hélio Duarte, João Rabello, Jorge Ávila, Miguel Jorge e Rogério Braga·

Meu agradecimento pessoal e terno a Vera Lúcia, minha esposa, e meus filhos Priscilla e Júnior, pela compreensão, apoio e, sobretudo, paciência·

Quando eu cursava a Faculdade de Direito, e já era bancário, meu sonho era chegar à Diretoria do Banco. Há 5 anos presido o Bradesco· Agora tenho o privilégio de presidir também a Febraban· Começa aqui uma nova etapa de minha vida, repleta de desafios· Um novo aprendizado, com certeza·

O nosso caminho está traçado: o que interessa ao Sistema Financeiro é um País forte, desenvolvido e justo·

Muito obrigado·

"Um sistema financeiro saudável, ético e eficiente é condição essencial para o
desenvolvimento econômico e social do País"

Fonte: Febraban